No passado dia 11 de julho foi inaugurada, em Coimbra, a Praça Europa, um novo espaço público concebido para acolher a estação do MetroBus que assegurará a ligação direta à Estação Ferroviária de Coimbra-B. Este novo terminal urbano passa agora a integrar uma obra de arte pública do artista plástico belga Paul de Gobert, reforçando a dimensão cultural e artística deste importante equipamento da cidade.

As Paliçadas (Les Palissades) de Paul de Gobert constituem uma das mais relevantes obras de arte urbana produzidas na Bélgica na década de 1970.

Criada entre 1975 e 1976, a obra nasceu durante a construção da nova sede do banco Crédit Communal, em Bruxelas. Em vez de deixar as barreiras de madeira que delimitavam o estaleiro como um simples elemento funcional, a instituição encomendou ao jovem Paul de Gobert a sua transformação numa intervenção artística de grande escala. Ao longo de cerca de 100 metros, o artista pintou um vasto conjunto de painéis que retratam a vida quotidiana de Bruxelas através de uma linguagem figurativa e de um notável recurso ao trompe-l’œil, representando personagens anónimas, trabalhadores, monumentos, edifícios emblemáticos e figuras conhecidas da sociedade belga, como o Rei Balduíno, a Rainha Fabiola e o ciclista Eddy Merckx. O conjunto distingue-se igualmente pelo humor subtil e pelo olhar atento sobre a cidade e os seus habitantes.

Após o final das obras, os painéis foram preservados pelo banco, restaurados em 2005 pelo próprio artista e apresentados em diversas exposições na Bélgica. Cinquenta anos depois da sua criação, as Paliçadas conheceram uma nova vida graças à colaboração entre Paul de Gobert, a Metro Mondego e a Câmara Municipal de Coimbra. Depois de um cuidadoso processo de conservação e restauro, a obra foi instalada na recém-inaugurada Praça Europa, transformando uma das principais portas de entrada da cidade num espaço onde a mobilidade, a arte pública e a identidade europeia se encontram.

A presença desta obra em Coimbra representa muito mais do que a relocalização de um conjunto de painéis históricos. Simboliza a capacidade da arte pública para preservar a memória dos lugares, estabelecer pontes entre culturas e humanizar o espaço urbano. Tal como aconteceu em Bruxelas na década de 1970, as Paliçadas continuam hoje a cumprir a sua missão original: transformar um espaço de passagem num lugar de encontro, contemplação e diálogo entre a cidade e os seus habitantes.

Nascido em Bruxelas, em 1949, Paul de Gobert é reconhecido pelas suas intervenções artísticas em edifícios e espaços públicos, sobretudo na Bélgica, onde deixou a sua marca em locais como as escolas Calvoet e Saint-Job, a estação de metro Vandervelde, o bairro Les Marolles e as paliçadas do Crédit Communal. Em Paris realizou igualmente diversos projetos de arte pública, desenvolvendo em paralelo uma sólida carreira como pintor, aguarelista e gravador.

Viajante incansável, Paul de Gobert transforma as suas experiências em diferentes geografias numa linguagem artística profundamente marcada pela observação da paisagem e da condição humana. Dos desertos do Saara às estepes da Mongólia, das cidades da Jordânia às florestas do Ruanda, dos arredores verdejantes de Bruxelas e Namur às sucessivas visitas a Portugal, recolhe impressões que transporta para a tela e para o papel. A sua obra, amplamente divulgada em exposições e publicações, revela um olhar sensível sobre a vida urbana e evidencia uma permanente e profunda paixão pela Natureza.

Em 2003, durante a minha estadia em Paris, tive o privilégio de colaborar com Paul de Gobert no seu ateliê, participando na preparação da grande exposição Le Mur du Son. Essa experiência constituiu um momento marcante no meu percurso artístico e humano. Fui calorosamente acolhido em sua casa, onde tive a oportunidade de conhecer a sua família e de partilhar momentos de grande proximidade. Dessa convivência nasceu uma amizade sincera que perdura na memória e que torna ainda mais especial o reencontro com a sua obra, agora presente em Portugal.


Cartografias Mentais (2026), de Ricardo Almeida: a arquitetura invisível do pensamento

A série Cartografias Mentais (2026), de Ricardo Almeida, articula o desenho, o mapa conceptual, representação simbólica e o estudo sobre os processos mentais. O trabalho apresenta-se como uma reflexão visual sobre os modos como o ser humano organiza a memória, o conhecimento e a perceção do mundo. A metáfora da cartografia surge aqui como instrumento crítico: mapear a mente significa tentar compreender os caminhos invisíveis da consciência, os sistemas de associação que estruturam o pensamento e as relações entre a experiência, a linguagem e a imaginação.

Num tempo marcado pela hiperconetividade digital, pela fragmentação da atenção e pela produção incessante de imagens e informação, Cartografias Mentais propõe uma desaceleração reflexiva. Ricardo Almeida convida o público a reconsiderar a mente não como um arquivo linear, mas como um território dinâmico, mutável e multidimensional.

A cartografia como metáfora do pensamento

Desde a Antiguidade, os mapas desempenham um papel fundamental na tentativa humana de compreender o espaço. Contudo, em Cartografias Mentais, o espaço não é geográfico: é interior. O artista desloca a cartografia do território físico para o território psicológico, transformando o mapa num dispositivo simbólico de interpretação da mente.

A proposta central da obra parte da ideia de que os pensamentos não surgem isoladamente. Eles organizam-se em redes, percursos, ligações afetivas e zonas de intensidade emocional. Assim como um mapa tradicional contém fronteiras, caminhos, acidentes geográficos e pontos de referência, a mente humana também possui regiões de memória, zonas de conflito, áreas obscuras e trajetos recorrentes.

Ao explorar essas relações, o autor aproxima-se de correntes contemporâneas da neurociência cognitiva que defendem modelos topográficos de organização mental. Estudos recentes sobre a representação do conhecimento no cérebro sugerem que a mente estrutura conceitos e experiências em redes associativas complexas, o que se aproxima, metaforicamente, da ideia de “mapas mentais”.

Memória, identidade e território interior

Outro eixo fundamental da obra é a relação entre memória e identidade. Em Cartografias Mentais, o sujeito contemporâneo aparece como um ser em permanente deslocamento psicológico. A identidade deixa de ser concebida como essência fixa e passa a ser entendida como percurso.

Os mapas mentais criados por Ricardo Almeida revelam que cada experiência humana deixa marcas, caminhos e zonas de intensidade emocional. Algumas memórias tornam-se centros organizadores da subjetividade; outras desaparecem, fragmentam-se ou permanecem em estado latente.

Nesse sentido, a obra aproxima-se das discussões filosóficas sobre memória desenvolvidas por autores como Henri Bergson e Gilles Deleuze, para quem a consciência não pode ser reduzida a um sistema mecânico de armazenamento de dados. A memória é movimento, duração e transformação.

Ricardo Almeida utiliza frequentemente imagens ligadas à geografia — desertos, rios, cidades, labirintos — para representar estados psicológicos. Essas imagens não funcionam apenas como metáforas; constituem uma linguagem visual da subjetividade. O território interior torna-se, assim, tão complexo quanto qualquer território físico.

As Cartografias Mentais podem ser compreendidas como uma investigação plástica sobre os modos de representação da subjetividade e da experiência interior. Ricardo Almeida desenvolve uma prática artística que cruza o desenho, a pintura, a instalação e a linguagem diagramática, aproximando-se de tendências actuais que exploram relações entre imagem, memória e espaço.

A obra insere-se num conjunto de práticas artísticas que utilizam o mapa não como instrumento científico de orientação geográfica, mas como linguagem crítica e poética. Desde os anos 60, artistas contemporâneos têm recorrido à cartografia como forma de questionar sistemas de poder, mecanismos de representação e formas de organização do conhecimento. Em Cartografias Mentais, esse gesto desloca-se para o campo da experiência subjetiva.

O artista transforma a cartografia num exercício de visualização do pensamento. Linhas, percursos, sobreposições e zonas de densidade gráfica sugerem movimentos mentais, fluxos de memória e estruturas emocionais. O mapa deixa de representar um território físico e passa a representar estados psicológicos, relações afetivas e experiências sensoriais.

A dimensão processual da obra também é particularmente relevante. Em vez de apresentar composições fechadas e definitivas, as Cartografias Mentais sugerem sistemas abertos, em constante reorganização. Essa característica aproxima a obra de metodologias contemporâneas associadas à arte processual e às práticas de arquivo, nas quais o processo de construção é tão importante quanto o resultado final.

Além disso, o uso de estruturas gráficas próximas do desenho técnico e do diagrama aproxima a obra de experiências visuais ligadas ao pensamento conceptual. A imagem funciona simultaneamente como representação estética e como ferramenta cognitiva. O espectador é levado a percorrer visualmente a obra como quem atravessa um território fragmentado e instável.

Ricardo Almeida, maio de 2026.

(Texto em actualização)


Né Themudo (1952-2025)
Né Themudo, instalação MD5M, 2016. Fotografia de Ricardo Almeida

Né Themudo Rocha nasceu no Porto a 21 de dezembro de 1952, faleceu a 29 de novembro de 2025, em Leiria.

Estudou “Pintura decorativa” na escola Escola de Artes Decorativas Soares dos Reis, também no Porto. Iniciou a sua carreira com fotógrafo em 1970.

Foi professor de fotografia no Instituto Português de Fotografia (Porto). Lecionou disciplinas como Técnica Fotográfica, Estúdio, Laboratório Preto e Branco, Fotografia Publicitária e de Produto.

Trabalhou como fotógrafo de cena para televisão — por exemplo, em 1988 participou na produção da série “O Barco e o Sonho” (Açores).

Desenvolveu trabalho editorial para revistas e publicações: em 1989 foi editor de fotografia da revista mensal de informação “Insula” (Açores).

Fez fotografias para ilustrações de livros comemorativos de empresas, e também para a primeira revista de bordo da empresa aérea SATA Air Açores.

Trabalhou no cinema/produção fotográfica em Espanha: por exemplo, em 1990 foi responsável pelo processamento a preto e branco de fotografia de cena no filme “Saltos Altos”, de Pedro Almodóvar.

Entre 1990 e 1992 foi técnico de processamentos fotográficos em Madrid, nos laboratórios “Copy-Foto”.

De 1993 a 1996 trabalhou como fotógrafo publicitário nos “Anmarbacher Studios”, em Nuremberga, Alemanha — inclusive realizou um calendário para a marca automóvel Porsche para 1994.

Em 2016, realizei uma exposição individual, na Fundação Altice (Porto), tive o privilégio de contar com o seu apoio, na realização e montagem de uma das minhas obras (MD5M), uma peça desafiante, senão fosse o seu contributo e boa disposição, provavelmente não a teria sido concretizada, foi a última vez que colaboramos juntos.

Estes são apenas alguns dos seus contributos, ao longo da sua carreira profissional, a nível nacional e internacional.

Nos últimos anos, continuou activo: foi um dos fotógrafos participantes da iniciativa Tipo Passe — projecto em que realizou vários retratos nas ruas — na edição mais recente em 2025 (em Leiria).

Né Themudo revelou um percurso bastante eclético: passou pela pintura, pela fotografia, pela docência, pelo cinema, publicidade e reportagem — e continuo a participar em iniciativas fotográficas contemporâneas. O seu percurso revela a versatilidade da fotografia como arte, técnica e meio de comunicação/socialização. O seu trabalho não poderá ser esquecido, uma vez que, apresenta qualidades únicas que revelam um olhar humano, sobre a sociedade e o mundo que nos rodeia.

Ao nível pessoal, as palavras são parcas para descrever a importância do Né na minha vida, um amigo muto especial (também da família), um mentor, uma pessoa única, de bom coração, criativa e de uma humildade que não existe.

Deixa um portfólio enorme, que deverá ser apreciado e valorizado por todos que nutrem a paixão pela Arte (fotográfica), mas também importante dizer, deixa um legado na cena fotográfica contemporânea.

Para conhecer a obra do Né Themudo, visite a sua página no Instagram ou Facebook:

https://www.instagram.com/nethemudo

https://www.facebook.com/nelson.themudo

https://tipopasse.pt/ne-themudo

(Artigo em actualização constante)

Ricardo Almeida

Fotografias de Né Themudo. Exposição Cartografias Mentais, 2016. Fundação Altice, Porto.

Montagem da obra MD5M com ajuda preciosa de Né Themudo, 2016. Fotografias de Ricardo Almeida


Bruno Munari, fora do seu tempo

Bruno Munari 1907 – 1998

“Making things complicated is easy. Achieving simplicity is tough.” B. Munari

Munari não é um nome muito comum para a maioria das pessoas no que toca aos designers mais importantes. Mas se colocarmos a questão a qualquer designer famoso mundialmente, o mais influente, fonte de inspiração intelectual e formal/material, foi sem dúvida o italiano Bruno Munari!

Artista, escritor, designer, arquitecto, designer gráfico, professor e filósofo, tem e continua a ter grande influência no mundo do design e da arte, sobretudo na forma como o/a vemos nos dias de hoje. Munari incide precisamente sobre os limites da arte e da sua interdisciplinaridade com outras formas de criatividade.

Mais informações: http://www.munart.org/

“Around and around”, 2010, aguarela e marcador preto s/ papel. [RA]

FANzines for ever

Fanzines ou “Fanatic Magazines“, como eram vulgarmente chamados na década de 30 do século passado, nos EUA.

Este tipo de publicações de carácter independente e libertário, apareceram num período de crescimento da banda desenhada e da ficção cientifica.

Na Europa, em França, os fanzines surgiram nos anos sessenta, dando prioridade aos textos críticos e de estudo sobre a BD, editados por profundos conhecedores do tema.

Em Portugal, o primeiro fanzine foi o Árgon, editado por jovens e com bandas desenhadas também feitas por jovens, datado de Janeiro de 1972.

Os fanzines abordam os mais variados temas, como: banda desenhada, cartoon, ilustração, ficção científica, música (pop, rock, heavy metal, etc.), cinema (gore, em especial), literatura (prosa e poesia), política (privilegiando o anarquismo), esoterismo, vegetarianismo, veganismo, jogos de computador, internet…

Os títulos, para além de eventualmente definirem o conteúdo, demonstram com frequência grande imaginação, anti-convencionalismo e até alguma agressividade em relação à sociedade, características que, não raro, também são evidenciadas, e até reforçadas, pelo respectivo grafismo.

No meu caso, iniciei o meu processo de exploração gráfico em formato de publicação, ainda muito jovem, lembro-me de ter pouco mais de 10 anos, e em conjunto com mais três amigos, realizamos pequenas publicações com desenhos e colagens sobre temas extraídos da actualidade (jornais e revistas).

Mais tarde, já como estudante universitário, desenvolvi vários projectos a solo, mas também em parceria com alguns colegas.

Na imagem que se segue poderá visualizar as minhas “fanzines”, lançadas entre 2001- 2004.

FANZINES

Almada 262 – exposição de pintura

Estou actualmente a expor um conjunto de trabalhos realizados há alguns anos atrás, fazem parte da série Código Visual, a mostra intitula-se Almada 262.

A mostra pode ser vista numa “sala de espera” no 1º andar do edifício modernista onde se insere o Hotel “Pão de Açúcar”, em plena rua do Almada nº 262, no centro do Porto.

“O desenho enquanto ferramenta fundamental, médium primário, associado ao inconsciente/consciente da mente, intimamente ligado ao pensamento, ou pelo menos, é essa a forma como eu o vejo. As composições desenvolvem-se como caminhos, percursos, mapas mentais, coreografados pelo movimento continuo do corpo hospedeiro.”

Ricardo Almeida

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Exposição estará patente até ao dia 28/02/2022

Apoio na montagem: Luís Peixoto.

Local: Rua do Almada, nº262, 1ºpiso. (Edifício Pão de Açúcar).


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